terça-feira, 14 de junho de 2011

O caso Palocci e os interesses de uns e de outros

Por Dalva Teodorescu


O comprometimento de parte da mídia com o principal partido da oposição, o PSDB, muitas vezes compromete o bom jornalismo e o destino do país.

No dia seguinte à queda de Palocci, o Jornal o Estado de São Paulo publicou um artigo onde afirmava que Palocci havia caído mais por suas qualidades que por seus defeitos.

Já a Folha de São Paulo anunciou, no mesmo dia, que haviam caído por terra as pretensões de Palocci sair candidato ao governo do estado de São Paulo.

Não conhecia essa pretensão de Palocci, mas pensei: ‘ele ganharia com certeza ou daria muito trabalho ao feudo tucano”.

Certeza que deve ter tido a Folha e parte da oposição que julgou e condenou Palocci, antes do julgamento do Procurador, o jogando no fogo do inferno da política brasileira.

Durante semanas o jornal Folha de São Paulo consagrou o seu primeiro caderno, quase que exclusivamente, a reforçar as denúncias contra o ex-ministro Palocci.

Virou uma obseção e chegou a sugerir várias vezes que o julgamento do Procurador Geral da República estaria condicionado à sua recondução ao cargo pela presidenta Dilma Rousseff.

O Procurador Gurgel é conhecido por sua independência e não hesitou em pedir a devolução dos passaportes da família do ex-presidente Lula, os únicos julgados inconstitucional entre mais de 300 analisados por ele.

Na verdade, todos sabiam que, ainda que eticamente condenável, não havia ilegalidade no enriquecimento de Palocci e que muitos outros ex-ministros de governo anteriores havia se tornados milionários, sem causar grande indignação.

No caso Palocci a imprensa se dividiu. Sem perder o foco crítico que exige seu público cativo, o Jornal O Estado de São Paulo e a Rede Globo se mostraram cautelosos insistindo que o Procurador Geral da República, embora houvesse pedido explicação a Palocci, dizia que não havia motivo para investigação.

Carta Capital e parte da esquerda seguiram as denúncias da Folha. Palocci representa o grande capital financeiro e a linha monetarista no governo, o que contraria e não condiz com a realidade da maior parte dos filiados ao Partido dos Trabalhadores.

No dia em que foi votado o Código Florestal, no auge da crise Palocci, o jornal do Dr. Ruy não hesitou colocar em Manchete a acusação de quebra de sigilo fiscal do ex-Ministro da Casa Civil.

A Folha refutou dizendo que o importante era a denúncia não a quebra de sigilo, atitude bem diferente da que adotou por ocasião da denúncia de quebra de sigilo bancário de personalidades tucanas, durante a eleição presidencial de 2010.

Não estou aqui defendendo Palocci. O dinheiro que alguns ganham facilmente falta para pagar salários dignos a muitos brasileiros e acredito que o governo vai se passar muito bem sem o ex-ministro e talvez até melhorar.

Estou repudiando uma forma de jornalismo que choca pela seletividade das denúncias e dos denunciados. É louvável a imprensa se preocupar com o enriquecimento de homens públicos, o que é insuportável é que o faça de maneira seletiva.

A denúncia de que 273 deputados federais e senadores exercem atividades empresariais de consultorias e que ex-ministros e ex-presidentes do Banco Central também enriqueceram deve ser levada a sério. 

É preciso acabar com a hipocrisia que reina sobre o assunto no Congresso Nacional e exigir que se abra um debate sobre a regularização de assessorias e, principalmente, da prática fortíssima do lobby para que não se transforme em tráfico de influência.

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