Por Dalva Teodorescu
Prezado Caio Blinder
Surpreendeu-me o seus comentários sobre o caso Dominique Strauss Khan. De início você seguiu cegamente a imprensa americana e desdenhou o povo francês, quando sua maioria não acreditou na história de estupro. É que o povo francês tem em mente certo vestido azul de Monica Lewinski, valioso porque manchado do esperma de Bill Clinton.
Portanto, os franceses, que respeitam a presunção de inocência, ficaram sim chocado de como a justiça e a mídia americana trataram DSK e a França.
Veio a verdade e logo me liguei na Jovem Pan para saber sua opinião. Nada naquele dia.
No dia seguinte você entrou no ar para dizer que, segundo o Figaro, 1 francês sobre 2 não quer a volta de DSK á politica. E completou (sic) depois da prisão de DSK os franceses mudaram sua cultura e agora acham importante saber da vida privada de seus representantes políticos.
Quase cai da cama. Tudo bem que os jornalistas às vezes falam coisas sem nexo, mas dizer que o povo francês, oriundo dos Franco e Gauleses, de cultura milenar, cultos, informados, críticos e cheio de espírito mudaram sua cultura em menos de um mês, por causa de uma atitude discutível de um promotor que agora está prestes a perder, se não o seu cargo, a sua reputação é demais.
Ontem no programa Manhattan Connection pouco se falou sobre o caso. Visivelmente constrangido você pediu para que não se fizesse julgamento precipitado. Seu colega Ricardo Amorim lembrou então que você tinha sido precipitado quando todos acusavam DSK. Você amarelou e negou. Ficou chato.
Hoje surgiu um fato novo. Uma jornalista francesa acusa DSK de assédio sexual (não estupro, como você afirmou) e logo no microfone da Jovem Pan você anunciou a novidade que corria na Internet desde a manhã de ontem.
O Problema meu caro Blinde é que hoje, na era da Internet e do canal a cabo, ser correspondente estrangeiro é muito difícil. As notícias são instantâneas.
O correspondente deveria se limitar a comentar fatos da sociedade de onde se está correspondendo. Por ter vivido 22 anos fora do Brasil sei o quanto é difícil ter uma visão completa e analítica de fatos do cotidiano do país, por mais que se mantenha inteirado pela imprensa e, hoje, pelas redes sociais.
Essa defasagem é ainda mais gritante no caso de Manhattan Connection, um programa desconectado da realidade brasileira. Os animadores podem se sentir muito sabidos e felizes, mas o programa, na maior parte das vezes, se configura num fiasco. Sobra a pretensão e o autoritarismo de opinião.
Outro dia uma jornalista brasileira da Globo News, que se diz também do New York Times, criticava a educação brasileira. Dizia que existia um oba oba em torno do Brasil mas a educação por aqui era péssima. Diogo Mainarde ironizou perguntando se existia alguém no Brasil com educação adequada. Todos se divertiram perguntando se a observação lhes servia também. Vou defender aqui o fato que muito foi feito e está sendo feito na área e defendo sim o nível educacional de muitos brasileiros brilhantes.
Pois é, no instante seguinte, a jornalista do NYT disse que desde o fim da ditadura se fala que o Brasil é o país do futuro. Você Caio e o Lucas Mendes riram da bobagem e disseram que a expressão era mais antiga do que a ditadura. Eu fiquei pasma com a falta de cultura e conhecimento da jornalista. A expressão “Brasil, um país do futuro” é o título do livro do grande escritor Austríaco Stefan Zweig publicado em 1947.
Claro que você deve saber disso, mas não o esclareceu para a pobre jornalista do NYT que continuou ignorante sobre o fato.
Na verdade a desinformação corre solta e em um desses programas Ricardo Amorim demonstrou total falta de Connection com a realidade brasileira, ao responder a Lucas Mendes sobre exemplos de favelas em processo de urbanização.
Amorim titubeou e respondeu que se tratava de favelas bairros, que queriam instalar no Rio de Janeiro, com postos de saúde e quadras de esportes e parou por aí.
Lucas Mendes do alto de sua torre de marfim de Manhattan ficou sem saber que a favela Heliópolis, situada na zona sul da cidade de São Paulo, está, há muito tempo passando pelo processo de urbanização.
Vários projetos são ali desenvolvidos, entre eles o do arquiteto e urbanista Ruy Ohtake de pintar fachadas de casas da favela. Além de equipamentos sociais como creches, postos de saúde, áreas de esportes, bancos, Heliópolis dispõem de uma orquestra regida pelo maestro Isaac Karabtchevsky. Criada em 1986, com um grupo de 36 alunos da comunidade a Sinfônica hoje conta com mais de 80 músicos de todo o país, dando exemplo de promoção da diversidade cultural na prática de inclusão social.
Outro exemplo de urbanização de favela bem sucedido é o de Santa Marta no Rio de Janeiro. Primeira a ser inserida no Programa de Pacificação de Favelas, Santa Marta está se tornando um bairro, com vários equipamentos públicos funcionando. Foi modelo para as outras favelas do Programa e seus moradores costumam alugar as lajes de suas casas para turistas assitirem aos fogos de artício, em Copacabama, na passagem do ano.
São modelos que poderiam dar conteúdo ao pobre comentário de Amorim, ou caso desconheça esses projetos, o mais honesto seria dizer que não tinha conhecimento de nenhum.
Também você Caio Blibder deu mostra de autoritarismo ao defender um polêmico texto do ex presidente Fernando Henrique Cardoso. Com tom professoral explicou que FHC falava daquele povo que já teria sido cooptado pelo PT.
Me entrigou. Teria sido você Caio cooptado pelo PSDB ao endossar tal ideia? Ou escolheu apoiar o partido de Higienópolis por ponderações críticas que só a consciência de cada um pode determinar.
E nós, classe média, médicos, arquitetos, sociólogos, engeinheiros e empresários que apreciamos um estilo de vida bem paulistano, saboreando um bom vinho com os amigos nos sábados de inverno, curtindo uma praia no verão, vendo Globo News e sonhamos com um mundo mais igual e mais justo para todos? Teríamos sidos cooptados ou recebido benesses do governo trabalhista que, a nosso ver, tanto proporcinou ao Brasil e ao povo brasileiro? Não teriamos capacidade crítica para fazer essa escolha?
É uma pena que brasileiros como Luca Mendes e você Caio Blinder não estejam assistindo às mudanças da sociedade brasileira, não somente em relação ao consumo, mas em relação à exigência dos direitos de cidadania. Como disse a presidenta Dilma Rousseff, hoje o povo brasileiro “não mais aceita políticas imperiais e certezas categóricas”.
Sim, existe muito a ser feito e boa parte dos trabalhadores brasileiros vivem em condições mais que precárias em transporte, saúde, moradia e educação. Mas muito foi feito e o Prouni permitiu que milhares de jovens pobres acedessem à Universidade, em áres como medicina, engenharia, ciências sociais e contábeis. Não é pouco.
Hoje o nosso povo está mudando. As exigências dos trabalhores das grandes construtoras por melhores condições de trabalho e fornecimento de passagens aéreas para visitar a família é apenas um exemplo.
As empregadas domésticas de antigamente, dormindo em cúbiculos, já quase não existem mais. É comum ver diaristas chegar ao trabalho com seus carros, comprado de segunda mão mas seus, ou suas motos, vestidas cada vez mais como suas patroas. A globalização e uniformalização da moda é uma realidade que atinge todas as classes sociais.
Outro dia, na TV, a irmã de um jovem que foi assassinado pela polícia, num cemitério de São Paulo, utilizava termos júridicos com destreza para explicar porque ia processar o Estado pela morte do irmão. Uma Prouni sem dúvida.
Manhattan Connexion, como o incosciente freudiano, não tem noção de tempo nem de espaço. Que tal descer do pedestal e começar a falar coisas que interessam ao público brasileiro.
Nesse sentido, Pedro Andrade mostrando eventos e curiosidades Novayorkinos faz mais sentido. Trás informações da cidade aos brasileiros, age como um correspondente, o que deveriam fazer os comentaristas da política nacional.
Sinto dizer lhes que no momento que a pátria amada USA começa a entrar em decadência, o nosso Brasil está em ascensão e, nesse sentido, estão perdendo o bonde da história de nosso país. Uma pena.
Como dizia-se na época que sairam do Brasil: O Brasil que imaginam Já era.
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