segunda-feira, 4 de julho de 2011

Qual a cor do meu semblante?


Por Sandro Pimentel

“Para entrar na sala onde vivia tecendo e organizando sua obra, era necessário entrar no delírio organizatório do artista, respondendo-se a um enigma por ele proposto: “Qual a cor do meu semblante?”ou “De que cor você vê minha aura?””


Os que respondiam com alguma cor, qualquer que fosse, Bispo permitia ver sua obra. Houve porem uma estagiaria de psicologia com poucos mais de vinte anos, que buscando se diferenciar do paciente negou entrar em seu jogo, respondendo não vê cor alguma. Recebeu várias recusas de Bispo, em várias tentativas de aproximação do universo do paciente. Mas, normalmente, as pessoas satisfaziam a curiosidade sobre os trabalhos de Bispo e não o buscava mais. Bispo deve ter sentido um interesse mais profundo em Rosângela Maria, a estagiaria, pois ela sistematizou suas visitas, dando lhe certo sentido de temporalidade ao seu interesse. Por isso finalmente permitiu sua entrada. Bispo a aceitou.


A convivência fez com que ele, desenvolvesse um profundo sentimento, contrariando a regra médica de que os esquizofrênicos perdem a capacidade de afeto. A relação se solidifica em forma de desejo unilateral. Bispo consegue um relógio, que não funciona, e passa a manipulá-lo, na esperança de que assim a estagiaria apareça. Ela lhe explica que não basta seu desejo para que as coisas aconteçam, ele começa a lhe dar dicas de como gosta que uma mulher se vista, e a demonstrar ciúmes dos seus outros pacientes. Passa também a tomar banho e a se pentear para esperá-la.


“A presença obsessiva do nome dessa mulher na obra de Bispo chega à expressão de uma confissão profunda do artista, quando escreve: “Diretora de tudo eu tenho.” Coloca-a como alter-ego em sua diária tarefa de organizar o mundo por meio dos objetos de sua realidade asilar.”


A convivência durou cerca de dois anos. O processo de separação foi dramático. Em certa ocasião, pressentindo a despedida, Bispo trabalha uma cadeira com rodinhas, com várias correntes. Diz a Rosângela ser seu trono, pede que ela sente-se nela e começa a movimentá-la com fúria. Ela explica que ele não poderá acorrentá-la a ele, que esteve ali para arrebentar suas correntes. A experiência faz surgir à obra “O trono acorrentado”.


Mas sua mais bela obra para Rosângela, ela só veria na penúltima sessão com Bispo: Ele fechou a grade da sua sela no Juliano Moreira e a levou ao quarto. Tentou fechar também essa porta, o que ela não permitiu. E ai no quarto estava “A cama para Romeu e Julieta”, uma cama com dossel e enfeites de cordões coloridos. Ao saber o nome da cama, Rosângela lhe perguntou se ele sabia como terminava Romeu e Julieta? Ele respondeu que só queria representar (...) “eu aceito, eu sei que você vai embora. Você pode ir embora”


Voltaram a se ver sete anos depois, quando Bispo resolver ficar sem se alimentar para torna-se transparente. Depois do encontro ele voltou a produzir e até sua morte não permitiu que lhe prestasse quaisquer cuidados terapêuticos.


Fonte: Arthur Bispo do Rosário arte e loucura de Jorge Anthonio e Silva.
Cama de Romeu e Julieta. Sem data. Madeira, tecido e colçhão de capim. fonte: catálago Imagens do inconsciente, 2000.


até mais de Abade para Bispo.


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