Da Folha.com
FABIO VICTORGABRIELA LONGMAN
ENVIADOS ESPECIAIS A PARATY
O crítico literário Antonio Candido, que fará hoje à noite a conferência de abertura da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), disse que sua amizade "profunda" com Oswald de Andrade o fez aceitar o convite para participar do encontro.
A nona edição da festa literária homenageia Oswald (1890-1954), intelectual ícone do modernismo brasileiro, a quem Candido chamava de "Oswaldo".
Veja a programação principal da Flip 2011
"Considero minha vida intelectual completamente encerrada. Sou um sobrevivente. Não dou entrevista, não dou curso, não publico mais nada. Mas acontece que fui muito amigo de Oswald de Andrade", afirmou ele, numa conversa com jornalistas na pousada em que está hospedado na cidade fluminense.
"Escrevi uns artigos de que ele não gostou, ele desceu a lenha em mim, ele era terrível, me chamou de mineiro malandro. Mas não me deixei alterar, vi que tinha sido um pouco injusto nos artigos e fiz um ensaio sobre Oswald, que ele gostou, e ficamos muito amigos, inclusive fui padrinho de uns filhos deles."
"A filha dele é amiga de infância de minha filha e me pediu. Acho que sou provavelmente o último amigo vivo do Oswald de Andrade. Não sou da geração dele, sou 30 anos mais moço, da geração seguinte. Mas achei que era uma espécie de obrigação contar como eu e minha geração víamos aquela personalidade vulcânica que era o Oswald."
Candido, que fará 93 anos no próximo dia 24, falou por quase 40 minutos, exibindo vitalidade e disposição.
Queixou-se apenas do cansaço da viagem de automóvel. "Essa serra de Paraty não é fácil."
Questionado sobre novas tecnologias para a leitura, disse que este "era um mundo fechado" para ele.
"Revelo aqui se vocês não contarem para ninguém, mas ainda escrevo a máquina. Sou um homem do passado, encalhado no passado. Não tenho computador, não tenho e-mail."
O crítico contou que não acompanha a produção literária contemporânea. "Não leio nada [atual]. Doei grande parte de minha biblioteca. Estou completamente fora do mundo literário. Nem sei quais são os autores atuais. Há cerca de 20 anos não leio coisa nova nenhuma do Brasil nem do estrangeiro. Leio sobretudo coisas do passado, Dostoiévski, Tolstói, Proust, Machado, Eça de Queiroz. O que não quer dizer que os atuais não sejam do mesmo nível, só que não os conheço."
Afirmou também ser "um mau leitor de jornal". "Todas as manhãs, dou uma lida rápida na Folha de S.Paulo, e só".
CRÍTICA SEM RISCO
Candido avaliou que a crítica literária brasileira continua sendo muito boa, mas que se arrisca menos do que no seu tempo.
Segundo ele, hoje a crítica literária vinda da universidade é dominante, e, disse Candido, essa corrente tradicionalmente analisa autores consagrados.
"Sou de um tempo em que a crítica literária era atividade jornalística. Levei para a universidade a crítica jornalística. Hoje é o contrário, a universidade tomou conta da crítica e os professores vêm escrever no jornal. Eu não, eu fui do jornal para a faculdade."
"Hoje a crítica literária acadêmica não corre risco nenhum, é uma atividade extremamente segura. Os rapazes fazem tese sobre Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Clarice Lispector. Agora, a pessoa pegar o livro [de um autor contemporâneo] e dizer 'esse bom, esse é ruim', isso acabou."
Para Candido, "o Brasil sempre foi um país de boa crítica literária". A gente pega a América Latina, do México a Patagônia, não tem nenhum pais que tenha tão boa crítica literária. Foi o primeiro país que fez história da sua literatura. Eu pessoalmente tive uma sorte extraordinária porque fui crítico literário num tempo de esplendor da literatura brasileira", afirmou,
"Eu brinco com alunos meus que são bons críticos: tenho pena de vocês, porque vocês têm que escrever artigos sobre os autores atuais, por melhores que sejam não são Mário de Andrade, não são Guimarães Rosa, não são Carlos Drummond de Andrade. Eu tinha que fazer para o jornal um artigo por semana sobre as novidades. 'Acaba de publicar um livro Sr. Graciliano Ramos.' Eu tive a sorte de viver num tempo de esplendor da literatura brasileira, foi mais ou menos até mil novecentos e cinquenta e poucos. Não quer dizer que [hoje] seja má, mas não tem mais aquele esplendor."
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/939733-sou-um-homem-do-passado
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